Os sensores de glicose e as bombas de insulina na prevenção da hipoglicemia

Fontes verificadas Atualizado: 31 de outubro de 2026 14 min de leitura

O sensor com alarmes e as bombas ligadas a um sensor reduzem o risco de hipoglicemia, mas não o eliminam por completo. Aqui ficas a saber quanto cada tecnologia reduz as hipoglicemias e que limiar escolher para o alarme de hipoglicemia. Ficas também a saber quanto tempo por dia a glicemia pode estar abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) e o que fazer se o sensor não funcionar.

72%
menos episódios com alarmes
−60%
tempo sob 70, bomba AID
menos de 4% do dia
tempo aceite sob 70 mg/dL

O sensor de glicose reduz o número de hipoglicemias?

Sim. O sensor com alarmes é uma das melhores medidas para prevenir a hipoglicemia e é hoje o padrão de monitorização da glicemia nos adultos com diabetes tipo 1 [1]. O maior benefício do sensor surge nos doentes com maior risco de hipoglicemia [2] [3]. São exemplos os que já não sentem as hipoglicemias ou os que tiveram uma hipoglicemia grave no último ano [2] [3]. Nos adultos com este risco tratados com insulina injetável, o sensor reduz em 72% os episódios hipoglicémicos de 20 minutos ou mais abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L) [2]. Esta redução é calculada em comparação com o uso apenas do glicómetro [2]. Nos doentes que já não sentem as hipoglicemias, os episódios graves descem para menos de metade enquanto usam o sensor, face aos períodos só com glicómetro [3].

O sensor também reduz as hipoglicemias nos adultos tratados com injeções de insulina, com pior controlo metabólico, que têm hemoglobina glicada (HbA1c) de pelo menos 7,5% [4] [5]. Neste caso, o número de episódios de pelo menos 20 minutos com a glicemia abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L) diminui cerca de 30% [4]. O tempo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) diminui cerca de 40% de dia e quase para metade à noite, face aos períodos só com glicómetro [5].

Que limiar escolhes para o alarme de hipoglicemia?

O limiar é o valor a partir do qual o alarme de hipoglicemia do sensor toca. Escolhe-lo com a tua equipa médica, de acordo com o teu risco de hipoglicemia. Para começar, um limiar razoável é 65–70 mg/dL (3,6–3,9 mmol/L) [6]. A tua equipa médica ensina-te a configurar os alarmes quando começas a usar o sensor [7].

Não te esqueças de que o valor mostrado pelo sensor tem um atraso de 5–15 minutos em relação à glicemia no sangue [1]. Por isso, um alarme com um limiar demasiado baixo pode tocar quando a hipoglicemia já está instalada, como explica também a página sobre a confirmação da hipoglicemia. Se tens hipoglicemias frequentes ou graves ou já não as sentes, o médico pode definir objetivos glicémicos menos rigorosos em comparação com os habituais [1]. O limiar do alarme de hipoglicemia é definido individualmente e pode ser ajustado com o tempo [8].

O que é o alarme que avisa de uma hipoglicemia antes de ela acontecer?

É o alarme preditivo, que nem todos os sensores têm. Um sensor com este alarme avalia a rapidez com que a glicemia desce e avisa-te antes de o valor mostrado ficar abaixo de um certo limiar [1]. Por exemplo, um dos sensores com este alarme avisa-te quando estima que o valor vai chegar a 55 mg/dL (3,1 mmol/L) ou menos nos 20 minutos seguintes [9]. Assim tens tempo para tomar hidratos de carbono (HC) antes de a glicemia chegar a esse valor.

Se mudares para um sensor com alarme preditivo, podes notar que diminui o tempo abaixo de 70 e de 54 mg/dL (3,9 e 3,0 mmol/L) [9]. Este tempo diminui quer o limiar do alarme de hipoglicemia esteja em 70, quer em 80 mg/dL (3,9 ou 4,4 mmol/L) [9]. O benefício do alarme preditivo não depende de quantas vezes abres a aplicação do sensor, porque o alarme toca sozinho de qualquer forma [10]. Um sensor que dá menos alarmes falsos de hipoglicemia ajuda-te a tratar mais depressa uma hipoglicemia noturna, porque é menos provável que ignores os seus alarmes [11].

O que significa a suspensão automática da administração de insulina?

É a função pela qual a bomba para sozinha os débitos basais. Os débitos basais são a insulina que a bomba administra de forma contínua, em pequenas quantidades. Na variante chamada suspensão no limiar, a bomba para os débitos basais quando o valor do sensor atinge um limiar definido. Algumas bombas têm suspensão preditiva e param mais cedo os débitos basais, quando estimam que o valor do sensor vai atingir o limiar definido nos 30 minutos seguintes. Depois, a bomba retoma a administração de insulina quando o valor do sensor sobe para uma zona considerada segura. A simples suspensão no limiar reduz em cerca de um terço as hipoglicemias noturnas, sem aumentar a HbA1c [12].

Nas crianças e nos adolescentes, a suspensão preditiva reduz de forma significativa o tempo em hipoglicemia, sobretudo à noite [13] [14]. Este benefício obtém-se sem aumento do tempo em hiperglicemia nem do número de episódios de cetoacidose [14]. Um sistema de administração automatizada de insulina (AID) é uma bomba ligada a um sensor e conduzida por um algoritmo [1]. A bomba AID adapta de forma contínua e nos dois sentidos o débito de insulina, de acordo com os valores recebidos do sensor e a sua tendência [1]. Nos adultos com risco elevado de hipoglicemia, a bomba AID reduz em cerca de 60% o tempo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) [15]. A figura abaixo compara as três tecnologias.

Figura 1

Três níveis de proteção contra a hipoglicemia

Sensor com alarmesSuspensão dos débitos basaisBomba AID
O que fazavisa-te quando a glicemia desce ou vai descera bomba para os débitos basais no limiar ou antes deleadapta de forma contínua o débito de insulina, de acordo com os valores recebidos do sensor e a sua tendência
Quando atuaantes do limiar, se o sensor tiver alarme preditivono limiar ou antes dele, se a bomba tiver suspensão preditivaem permanência, de dia e de noite
Quanto reduz as hipoglicemiasos episódios abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L), em 72% com risco elevado e em cerca de 30% com HbA1c de pelo menos 7,5%as hipoglicemias noturnas, em cerca de um terçoo tempo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L), em cerca de 60% com risco elevado
O que fica a teu cargoreagir ao alarme e tratar a hipoglicemiao tratamento da hipoglicemiaintroduzir corretamente os HC, anunciar o exercício físico e, se for preciso, tratar a hipoglicemia
Cada nível inclui o anterior. Nos adultos com risco elevado de hipoglicemia, o sensor com alarmes reduz em 72% os episódios de pelo menos 20 minutos abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L) [2]. A suspensão no limiar reduz em cerca de um terço as hipoglicemias noturnas [12]. A bomba AID reduz em cerca de 60% o tempo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) [15]. Nenhuma elimina por completo as hipoglicemias, por isso os alarmes de hipoglicemia devem estar sempre ligados.

As bombas AID eliminam por completo as hipoglicemias?

Não. Uma bomba AID adapta de forma contínua o débito de insulina nos dois sentidos, e alguns modelos administram também pequenas doses de insulina de correção [7]. No entanto, nenhuma bomba AID consegue retirar do corpo a insulina já administrada [7]. A hipoglicemia pode continuar a surgir após um bólus de refeição demasiado grande ou após um esforço físico, sobretudo se não o indicaste a tempo à bomba [6]. Pode contribuir também o atraso fisiológico dos valores estimados pelo sensor em relação à glicemia no sangue [6]. Depois da passagem das injeções ou de uma bomba sem sensor para uma bomba AID, as hipoglicemias graves tornam-se menos frequentes na prática corrente [16] [17]. Em comparação com uma bomba ligada a um sensor com suspensão preditiva, as bombas AID em geral não trouxeram, nos estudos aleatorizados, uma redução adicional das hipoglicemias graves [1]. Na prática corrente, esta descida observa-se por vezes também após deixar uma bomba deste tipo [16].

Cerca de um em cada cinco adultos com diabetes tipo 1 que usam uma bomba AID refere pelo menos uma hipoglicemia grave num ano [18]. Os doentes que tiveram hipoglicemias graves apontam com mais frequência como causa uma dose de insulina demasiado alta ou uma quantidade de HC sobrestimada [18]. Por isso é importante introduzir corretamente na bomba a quantidade de HC, ativar a tempo o modo de exercício físico e manter os alarmes ligados [1]. Se usas uma bomba AID, a hipoglicemia trata-se habitualmente com 5–10 g de HC, porque a bomba já reduziu ou parou há algum tempo a administração de insulina [1] [14] [19]. As exceções são a hipoglicemia durante um esforço físico e a que surge após uma dose de insulina da refeição calculada para muito mais HC do que os ingeridos [6]. Nestas situações tratas a hipoglicemia com a quantidade habitual de cerca de 15 g de HC, como explica a página sobre o tratamento da hipoglicemia [1].

Quanto tempo por dia pode a glicemia estar abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L)?

Para a maioria dos adultos com diabetes, o objetivo para o tempo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) é menos de 4% do dia (menos de uma hora) [20]. Dentro deste tempo, o objetivo para o tempo abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L) é menos de 1% do dia (menos de 15 minutos) [20]. Nos doentes idosos ou com risco elevado de hipoglicemia, o objetivo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) é menos de 1% do dia (menos de 15 minutos) [20]. Na gravidez, nas doentes com diabetes tipo 1, o objetivo de menos de 4% do dia aplica-se ao tempo abaixo de 63 mg/dL (3,5 mmol/L) [20].

As percentagens do relatório do sensor são fiáveis se o sensor registou valores durante pelo menos 70% do tempo, em pelo menos 14 dias [20]. Estas percentagens mostram o risco de hipoglicemia melhor do que as hipoglicemias de que te lembras, porque 25–30% dos doentes com diabetes tipo 1 já não sentem as hipoglicemias [1]. Um único episódio de hipoglicemia de nível 2 ou 3 basta para que a equipa médica reavalie o tratamento, por isso comunica-lo sem esperar pela consulta seguinte [21].

Como lês os relatórios do sensor para encontrar padrões de hipoglicemia?

Começa pelo relatório padrão de 14 dias, chamado perfil glicémico ambulatório (relatório AGP) [7]. Olha primeiro para o tempo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) e abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L), porque estes valores mostram o risco de hipoglicemia [20]. O gráfico principal sobrepõe os valores de glicemia dos 14 dias no mesmo eixo de 24 horas. Para cada hora do dia, o limite inferior da faixa colorida mostra os valores mais baixos registados nos 14 dias.

Procura padrões, não episódios isolados de hipoglicemia. Um padrão significa valores abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) à mesma hora, em vários dias. Um padrão destes ajuda-te a identificar a dose de insulina que pode ser demasiado alta. Depois discute-la com a tua equipa médica, como explica também a página sobre o ajuste da insulina. Compara as noites com os dias, os dias com exercício físico com os dias sem exercício e os fins de semana com os dias úteis. O relatório mostra também os episódios de hipoglicemia que não sentiste [22]. A equipa médica ajusta o tratamento de acordo com estes dados [22].

Demasiados alarmes levam-te a ignorá-los?

Sim, é possível. O fenómeno chama-se fadiga de alarmes e surge quando recebes tantos alarmes que já não reages corretamente a eles [23]. O risco é desligares todos os alarmes, incluindo o alarme de hipoglicemia [23]. Por isso, as definições dos alarmes decidem-se com a tua equipa médica [7].

Mantém apenas os alarmes que exigem uma ação imediata da tua parte [6]. Dá prioridade ao alarme de hipoglicemia [8]. Podes acrescentar o alarme de glicemia alta, por exemplo, com um limiar inicial de 250–300 mg/dL (13,9–16,7 mmol/L), ajustado depois às tuas necessidades [6]. Revê as definições dos alarmes com a tua equipa médica em cada consulta. Nunca desligues o alarme de hipoglicemia durante a noite.

A bomba de insulina reduz o risco de hipoglicemia em comparação com as injeções?

Uma bomba de insulina que não está ligada a um sensor pode reduzir o número de hipoglicemias graves em comparação com as injeções múltiplas de insulina [14] [24]. O maior benefício surge nos doentes que tinham muitas hipoglicemias graves quando eram tratados com injeções [24]. Após um programa de educação em que aprendem a ajustar as suas doses de insulina, os doentes tratados com injeções têm hipoglicemias graves com menos frequência [25]. O seu risco fica próximo do dos doentes que usam uma bomba [25].

O maior benefício surge quando a bomba está ligada a um sensor e para sozinha os débitos basais ou adapta sozinha o débito de insulina [1] [12] [15]. Nas crianças, a passagem para uma bomba com suspensão preditiva ou para uma bomba AID reduz em mais de um terço o tempo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) [26]. As bombas AID são hoje o método preferido de administração de insulina na diabetes tipo 1, nas crianças mesmo desde o diagnóstico [7] [14]. Se não tens acesso a uma bomba AID, a escolha seguinte é a bomba com suspensão preditiva [14]. Se usas uma bomba que não está ligada a um sensor, fala com o teu médico sobre a passagem para uma bomba AID.

O que fazes quando o sensor avaria ou se descola?

Medes a glicemia com o glicómetro até teres acesso a um sensor novo. Qualquer doente que usa um sensor deve ter sempre à mão também um glicómetro com tiras dentro do prazo de validade [7]. A glicemia deve ser avaliada antes das refeições e dos lanches, ao deitar, antes de conduzir e sempre que tiveres sinais de hipoglicemia [7]. Enquanto não tiveres um sensor a funcionar, não recebes alarmes de hipoglicemia. Por isso é boa ideia medir a glicemia uma vez também durante a noite, nas noites com maior risco de hipoglicemia [8]. São exemplos as noites a seguir a um esforço físico intenso ou ao consumo de álcool.

Se não receber valores do sensor, a bomba AID já não consegue adaptar o débito de insulina. A maioria das bombas AID passa então para o modo manual, com administração dos débitos basais programados, sem adaptação automática [7]. Precisas também de um plano de reserva escrito para o caso de a bomba deixar de funcionar por completo. Tens de saber que doses de insulina podes administrar com a caneta de insulina [1]. Depois de inserires um sensor novo segue-se um período de aquecimento, durante o qual o sensor não mostra valores nem dá alarmes [7]. Durante este tempo podes medir a glicemia com o glicómetro, como explica também a página sobre o período de aquecimento. Guarda um sensor de reserva no trabalho e outro na bagagem quando viajas.

Conclusões

  • O sensor com alarmes reduz o risco de hipoglicemia nos adultos com diabetes tipo 1 [1] [2]. O maior benefício surge nos que têm maior risco de hipoglicemia [2].
  • O limiar do alarme de hipoglicemia é habitualmente definido no início em 65–70 mg/dL (3,6–3,9 mmol/L) [6]. O alarme preditivo, se o sensor o tiver, dá-te tempo para tomar hidratos de carbono antes de a glicemia chegar ao valor previsto [9].
  • As bombas de insulina reduzem as hipoglicemias, mas não as eliminam por completo, por isso os alarmes de hipoglicemia devem estar sempre ligados [12] [15] [18].
  • Para a maioria dos adultos com diabetes, o objetivo para o tempo abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) é menos de 4% do dia [20]. O relatório do sensor de 14 dias inclui as horas em que a glicemia desce abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) no período analisado [20].

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Ioacara S. Os sensores de glicose e as bombas de insulina na prevenção da hipoglicemia. Diabetes Academia. Atualizado 31 de outubro de 2026. https://diabetesacademia.com/pt/dm1/tecnologia-para-prevenir-a-hipoglicemia

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