Como tratas uma hipoglicemia ligeira

Fontes verificadas Atualizado: 17 de outubro de 2026 10 min de leitura

Uma hipoglicemia ligeira trata-se com 15 g de hidratos de carbono de absorção rápida, uma pausa de 15 minutos e uma nova medição. A forma grave trata-se de maneira completamente diferente.

15 g de HC
a quantidade padrão do adulto
15 minutos
a pausa antes de medir de novo
>70 mg/dL
o alvo depois do tratamento

O que fazes nos primeiros minutos de uma hipoglicemia?

Paras o que estás a fazer e sentas-te, se puderes. Tomas hidratos de carbono (HC) de absorção rápida, de preferência glicose. Esperas 15 minutos e depois voltas a medir a glicemia com o glicómetro [1]. Esta página trata da hipoglicemia ligeira, aquela que resolves sozinho. A forma grave, em que já não consegues engolir, exige glucagom e a ajuda de quem está por perto, e o seu tratamento é descrito à parte.

O que não fazes conta tanto como o resto. Não continuas a conduzir, a nadar nem a trabalhar em altura. Não administras insulina durante este tempo. Não comes tudo o que encontras, porque o resultado será uma glicemia alta uma hora depois, seguida de uma correção e por vezes de nova hipoglicemia. Os passos são apenas três e a ordem conta, como mostra a figura abaixo.

Figura 1

A regra dos 15, passo a passo

  1. Passo 1Toma 15 g de hidratos de carbono rápidos3–4 comprimidos de glicose ou 150 ml de sumo de fruta. Sem chocolate nem frutos secos. A gordura atrasa a absorção.
  2. Passo 2Espera 15 minutosNão recomeces mais cedo, por mais desagradável que seja. As tomas demasiado próximas sobrepõem-se e levam-te a uma hiperglicemia.
  3. Passo 3Volta a medir a glicemiaConfirma, não partas do princípio de que já está resolvido.

O que mostra a nova medição?

  • Continua abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L)Repete a partir do passo 1, com a mesma quantidade. Se a glicemia continuar baixa depois de três tomas, precisas de ajuda médica, não apenas de uma quarta toma.
  • Acima de 70 mg/dL (3,9 mmol/L)A hipoglicemia está resolvida. Se a refeição seguinte for daqui a mais de uma hora, come um lanche com hidratos de carbono de absorção lenta.
A regra dos 15 é o ponto de partida para uma hipoglicemia ligeira, enquanto estás consciente e consegues engolir [1]. A quantidade de 15 g não é uma garantia. Se a glicemia já estava muito baixa ou se ainda tens insulina ativa do bolus anterior, vais precisar de uma segunda toma [2]. Nas crianças a quantidade é calculada pelo peso. A regra não se aplica à hipoglicemia grave, quando já não consegues engolir em segurança.

O que significa a regra dos 15?

É a regra mais usada na educação em diabetes. Tomas 15 g de hidratos de carbono de absorção rápida, esperas 15 minutos e medes a glicemia. Se continuares abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L), repetes exatamente o mesmo mais uma vez.

A força da regra está na simplicidade. Fica na memória durante uma hipoglicemia, quando o pensamento abranda. Os números não são, porém, uma garantia. Quando o tratamento começa abaixo do limiar de 70 mg/dL (3,9 mmol/L), 69% das pessoas precisam de mais do que uma ronda [2]. A quantidade ajusta-se com o teu médico segundo o peso, a idade e o tipo de tratamento.

Quantos gramas de hidratos de carbono tomas numa hipoglicemia ligeira?

No adulto, 15 g é a quantidade padrão. Isso corresponde a cerca de três comprimidos de glicose ou 150 ml de sumo de fruta. O que conta é a quantidade de glicose do alimento, não o total de hidratos de carbono, por isso a glicose pura é a primeira escolha [3].

A quantidade de HC necessária para tratar uma hipoglicemia ligeira muda nalgumas situações. As crianças precisam de menos, em proporção ao peso. Os doentes com um sistema automatizado de administração de insulina também precisam de menos. A razão, nesse caso, é que o sistema já reduziu ou até parou a insulina há algum tempo. Em ambos os casos, 15 g podem deixar a glicemia um pouco alta demais logo a seguir à correção.

Ao fim de quanto tempo voltas a medir a glicemia?

Ao fim de 15 minutos. É o tempo de que a glicose precisa para sair do estômago, chegar ao sangue e aumentar a glicemia [1]. Mais cedo não verás grande coisa e o número pode assustar-te sem razão. Não recomeces o tratamento antes disso, por mais desagradável que seja, porque rondas demasiado próximas sobrepõem-se e levam-te a uma hiperglicemia.

Se estiveres a olhar para o sensor, espera mais. O valor do sensor aumenta alguns minutos depois do sangue, por isso aos 15 minutos pode parecer que nada aconteceu [4]. Esta é a causa mais frequente de sobretratamento de uma hipoglicemia. Neste intervalo, é o glicómetro que dá a resposta certa.

O que fazes se a glicemia não aumentou depois da primeira ronda?

Repetes a mesma quantidade e esperas mais 15 minutos. Não duplicas nem passas para outra coisa. A maioria dos episódios resolve-se na primeira ou na segunda ronda.

Vale a pena verificar também o que comeste. O chocolate e o gelado contêm gordura que atrasa a absorção, enquanto as bolachas são sólidas e difíceis de contar. Por isso não funcionam bem como tratamento de urgência. As bebidas sem açúcar não contêm hidratos de carbono nenhuns [5]. Se tomaste algo destes grupos, a primeira ronda perdeu-se.

Quantas vezes podes repetir o tratamento?

Duas ou três vezes. Se ao fim de três rondas bem feitas a glicemia continuar sem aumentar, a situação deixa de ser habitual e precisas de ajuda [6]. Pedes assistência médica e continuas a tentar sozinho entretanto.

As causas habituais de uma hipoglicemia ligeira que não se corrige são três:

  • Uma dose de insulina demasiado grande para a quantidade de hidratos de carbono daquela refeição.
  • O consumo de álcool, que bloqueia a produção de glicose no fígado [7].
  • Um erro de administração, como confundir a insulina rápida com a basal.

Nestas situações a hipoglicemia pode prolongar-se durante horas e exige vigilância médica. Avisa alguém à tua volta se estiveres nessa situação. Se surgirem confusão ou sonolência, é preciso chamar a emergência médica.

Precisas de menos hidratos de carbono com um sistema automatizado de administração de insulina?

Sim. Nestes doentes recomendam-se 5 a 10 g de hidratos de carbono, em vez dos 15 g da maioria. A razão é que o sistema já parou ou reduziu a insulina algum tempo antes, pelo que parte do trabalho já foi feita [8].

Há duas exceções em que usas mesmo assim a quantidade habitual de 15 g de HC. A primeira é a hipoglicemia durante o exercício ou depois dele. A segunda é quando sobrestimaste claramente os HC de uma refeição e administraste um bólus demasiado grande. Quando a insulina ativa ultrapassa muito a necessidade do momento, a hipoglicemia trata-se com 15 g de HC [9].

A quantidade de hidratos de carbono depende do peso corporal?

Sim, sobretudo nas crianças. Nesse caso recomendam-se cerca de 0,3 g de glicose por quilograma [10]. Uma criança de 30 kg precisa de cerca de 9 g de hidratos de carbono e, acima de 50 kg, chega-se aos 15 g, a quantidade do adulto.

A lógica é simples. A mesma quantidade de glicose aumenta mais a glicemia de um corpo mais pequeno, porque se distribui por um volume menor. Numa criança de 20 kg, 15 g de HC deixam muitas vezes uma glicemia alta demais depois da correção. A quantidade certa resolve a hipoglicemia sem criar o problema seguinte, a hiperglicemia.

Tens de parar a atividade enquanto te tratas?

Sim, e o melhor é parar por completo. Paras e sentas-te até a glicemia voltar acima do limiar de 70 mg/dL (3,9 mmol/L). O esforço físico consome a glicose que acabaste de tomar e prolonga o episódio. Não nadas, não sobes a um escadote e não trabalhas com máquinas enquanto não tiveres um valor confirmado acima do limiar [1].

Se a hipoglicemia surgir durante o exercício, interrompes a atividade, tomas hidratos de carbono de absorção rápida e só retomas depois de a glicemia voltar ao teu alvo. Lembra-te de que o risco de nova hipoglicemia se mantém alto várias horas depois do treino, não apenas durante ele [11].

O que fazes se a hipoglicemia surgir ao volante?

Encostas, desligas o motor, tratas e esperas. O desempenho ao volante já está alterado com valores pouco acima do limiar de hipoglicemia, e os condutores costumam adiar a correção até a glicemia estar muito baixa [12]. Não sigas viagem com uma glicemia abaixo de 90 mg/dL (5,0 mmol/L), porque o valor pode mudar bastante nos primeiros 20 minutos de percurso [13].

Esperas pelo menos 45 minutos depois de a glicemia medida voltar ao normal, não apenas até o número aumentar. Depois de uma hipoglicemia, a atenção demora mais a recuperar do que a glicemia [14]. Guarda no carro uma reserva de glicose e o glicómetro, porque durante uma hipoglicemia não tens paciência nem clareza para andar à procura.

Como tratas uma hipoglicemia que surge de noite?

O tratamento é o mesmo de dia e de noite, ou seja 15 g de hidratos de carbono de absorção rápida e uma nova medição 15 minutos depois. A diferença é que de noite tens primeiro de acordar. Os alarmes do sensor tornam-se então extremamente valiosos [15].

Os sistemas que param automaticamente a insulina quando preveem uma hipoglicemia reduzem de forma significativa o número de episódios noturnos [8]. A solução não é comer a mais ao jantar para ficar descansado, mas discutir a escolha das doses de insulina com a tua equipa médica.

Que valor de glicemia procuras depois de corrigir um episódio?

Acima de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) e estável. Não precisas de um valor alto para estares em segurança. Uma glicemia de 90 ou 100 mg/dL (5,0 ou 5,6 mmol/L) que já não baixa é um resultado muito bom.

Se a insulina rápida ainda estiver ativa e a refeição seguinte estiver longe, junta hidratos de carbono de absorção mais lenta, como uma fatia de pão ou um iogurte [1]. Não administres insulina para corrigir o aumento que vem a seguir, porque é aí que surgem mais correções desnecessárias. Aponta o episódio, com a hora, o valor e a insulina ativa, e fala dele na consulta seguinte.

Conclusões

  • A regra dos 15 significa 15 g de hidratos de carbono de absorção rápida, 15 minutos de espera e uma nova medição [1] [2].
  • Com um sistema automatizado de administração de insulina bastam em geral 5 a 10 g de hidratos de carbono [8] [9].
  • Na criança a quantidade calcula-se pelo peso, cerca de 0,3 g de glicose por quilograma [10].
  • Ao volante esperas pelo menos 45 minutos depois de a glicemia medida voltar ao normal e não segues viagem abaixo de 90 mg/dL (5,0 mmol/L) [13] [14].
  • A hipoglicemia grave trata-se de outra maneira, com glucagom e a ajuda de quem está por perto, e é descrita à parte [1].

Referências

  1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 6. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes-2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S132-S149. PubMed
  2. Cheng R, Taleb N, Wu Z, Bouchard D, Parent V, Lalanne-Mistrih ML, et al. Managing Impending Nonsevere Hypoglycemia With Oral Carbohydrates in Type 1 Diabetes: The REVERSIBLE Trial. Diabetes Care. 2024;47(3):476-482. PubMed
  3. Brodows RG, Williams C, Amatruda JM. Treatment of insulin reactions in diabetics. JAMA. 1984;252(24):3378-3381. PubMed
  4. Basu A, Dube S, Veettil S, et al. Time lag of glucose from intravascular to interstitial compartment in type 1 diabetes. J Diabetes Sci Technol. 2015;9(1):63-68. PubMed
  5. Abraham MB, Karges B, Dovc K, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Assessment and management of hypoglycemia in children and adolescents with diabetes. Pediatr Diabetes. 2022;23(8):1322-1340. PubMed
  6. Villani M, de Courten B, Zoungas S. Emergency treatment of hypoglycaemia: a guideline and evidence review. Diabet Med. 2017;34(9):1205-1211. PubMed
  7. Holt RIG, DeVries JH, Hess-Fischl A, et al. The management of type 1 diabetes in adults. The updated 2026 consensus report by the American Diabetes Association (ADA) and the European Association for the Study of Diabetes (EASD). Diabetologia. 2026 Sep 16. Online ahead of print. PubMed
  8. Bojoga I, Ioacara S, Malinici E, et al. Enhanced Metabolic Control in a Pediatric Population with Type 1 Diabetes Mellitus Using Hybrid Closed-Loop and Predictive Low-Glucose Suspend Insulin Pump Treatments. Pediatr Rep. 2024;16(4):1188-1199. PubMed
  9. Phillip M, Nimri R, Bergenstal RM, et al. Consensus Recommendations for the Use of Automated Insulin Delivery Technologies in Clinical Practice. Endocr Rev. 2023;44(2):254-280. PubMed
  10. McTavish L, Wiltshire E. Effective treatment of hypoglycemia in children with type 1 diabetes: a randomized controlled clinical trial. Pediatr Diabetes. 2011;12(4 Pt 2):381-387. PubMed
  11. Basu R, Johnson ML, Kudva YC, Basu A. Exercise, Hypoglycemia, and Type 1 Diabetes. Diabetes Technol Ther. 2014;16(6):331-337. PubMed
  12. Cox DJ, Gonder-Frederick LA, Kovatchev BP, Julian DM, Clarke WL. Progressive hypoglycemia's impact on driving simulation performance. Occurrence, awareness and correction. Diabetes Care. 2000;23(2):163-170. PubMed
  13. Trawley S, Stephens AN, McAuley SA, Speight J, Hendrieckx C, Vogrin S, et al. Driving with Type 1 Diabetes: Real-World Evidence to Support Starting Glucose Level and Frequency of Monitoring During Journeys. Diabetes Technol Ther. 2022;24(5):350-356. PubMed
  14. Zammitt NN, Warren RE, Deary IJ, Frier BM. Delayed recovery of cognitive function following hypoglycemia in adults with type 1 diabetes: effect of impaired awareness of hypoglycemia. Diabetes. 2008;57(3):732-736. PubMed
  15. Wang X, Ioacara S, DeHennis A. Long-Term Home Study on Nocturnal Hypoglycemic Alarms Using a New Fully Implantable Continuous Glucose Monitoring System in Type 1 Diabetes. Diabetes Technol Ther. 2015;17(11):780-786. PubMed

Como citar esta página

Ioacara S. Como tratas uma hipoglicemia ligeira. Diabetes Academia. Atualizado 17 de outubro de 2026. https://diabetesacademia.com/pt/dm1/tratamento-hipoglicemia

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