Compreender a diabetes gestacional: causas e cuidados

Fontes verificadas Atualizado: 5 de outubro de 2026 9 min de leitura

Porque surge a diabetes gestacional, que papel tem a placenta, em que trimestre é detetada e o que acontece à glicemia após o parto.

30–50%
DT2 em 15–20 anos
até 60%
risco de DT2 ao longo da vida
~14%
frequência nas gravidezes

O que é a diabetes gestacional e porque surge?

A diabetes gestacional é uma forma de diabetes mellitus que surge pela primeira vez no segundo ou terceiro trimestre da gravidez [1]. O organismo produz insulina, mas as hormonas secretadas pela placenta bloqueiam parcialmente a sua ação. Quando o pâncreas não consegue produzir insulina suficiente para compensar esta resistência aumentada, a glicemia aumenta acima dos valores normais [2].

O processo surge gradualmente, à medida que a placenta cresce e liberta quantidades cada vez maiores de hormonas diabetogénicas, ou seja, de hormonas que aumentam a glicemia [1]. Fatores como o excesso de peso antes da gravidez, a idade acima dos 35 anos e o histórico familiar de diabetes tipo 2 aumentam o risco de desenvolver esta condição. No entanto, a diabetes gestacional também pode surgir em mulheres sem fatores de risco evidentes.

Em que difere a diabetes da gravidez de outros tipos?

A diabetes gestacional difere fundamentalmente dos outros tipos pela sua causa temporária e específica da gravidez [2]. Na diabetes tipo 1, o sistema imunitário destrói as células produtoras de insulina, e esta destruição é permanente. Na diabetes tipo 2, o corpo torna-se resistente à insulina ao longo de vários anos devido ao estilo de vida e à predisposição genética.

Na diabetes gestacional, a resistência à insulina é causada pelas hormonas placentárias e desaparece geralmente após o parto [1]. Não é uma doença autoimune nem implica a destruição das células beta pancreáticas, ou seja, das células do pâncreas que produzem a insulina. O tratamento é geralmente necessário apenas durante a gravidez, embora o risco de desenvolver posteriormente diabetes tipo 2 permaneça aumentado, como mostra a figura abaixo [3].

Figura 1

A diabetes gestacional face ao tipo 1 e ao tipo 2

Diabetes gestacionalDiabetes tipo 1Diabetes tipo 2
A causaas hormonas placentáriasa destruição autoimune das células betauma resistência à insulina instalada ao longo de anos
As células betaficam intactassão destruídas de forma definitivaficam em parte e já não dão conta
Quando aparecena gravidez, em geral no segundo trimestreem qualquer idadesobretudo na idade adulta
Quanto duradesaparece em regra depois do partotoda a vidatoda a vida
O tratamentoem geral apenas durante a gravidezinsulina, sem exceçãomedicamentos, insulina opcional
O que fica depoisum risco aumentado de diabetes tipo 2a doença continuaa doença continua
A diabetes gestacional distingue-se dos outros tipos pela sua causa temporária, ligada à gravidez [2]. A resistência à insulina está ligada às hormonas placentárias e desaparece geralmente depois do parto [1]. O risco de vir a ter diabetes tipo 2 mais tarde permanece aumentado, por isso as verificações continuam também depois da gravidez [3].

Porque não havia diabetes antes da gravidez?

Antes da gravidez, o pâncreas produzia insulina suficiente para as necessidades do corpo. Não existiam hormonas placentárias que interferissem com a ação da insulina. O organismo mantinha um equilíbrio entre a produção de insulina e a necessidade de glicose das células [4].

A gravidez exige mais energia ao teu organismo e altera a forma como este utiliza a glicose. As hormonas placentárias aumentam progressivamente a resistência à insulina, e o pâncreas tem de duplicar ou até triplicar a sua produção de insulina [1]. Se esta capacidade de adaptação for ultrapassada, surge a hiperglicemia, ou seja, a diabetes gestacional.

A diabetes gestacional é temporária ou permanente?

A diabetes gestacional é, por definição, uma condição temporária, que se resolve na maioria dos casos após o parto [2]. Quando a placenta é expulsa, as hormonas responsáveis pela resistência à insulina desaparecem rapidamente [1]. A glicemia volta geralmente aos valores normais nas primeiras horas ou dias após o parto.

No entanto, temporária não significa sem consequências a longo prazo. As mulheres com histórico de diabetes gestacional permanecem expostas ao risco de diabetes tipo 2. Entre 30% e 50% desenvolvem diabetes tipo 2 nos 15 a 20 anos seguintes, e o risco ao longo da vida pode chegar a 60%. Por isso, a monitorização da glicemia após o parto e a adoção de um estilo de vida saudável são essenciais para a prevenção da diabetes tipo 2.

Em que trimestre surge mais frequentemente a diabetes gestacional?

A diabetes gestacional surge mais frequentemente no segundo trimestre, geralmente entre as semanas 24 e 28 da gravidez [2]. Este é o período em que a placenta atinge uma dimensão suficiente para produzir quantidades significativas de hormonas diabetogénicas. Por isso, a prova de tolerância à glicose oral (PTGO) é realizada precisamente neste intervalo [3].

No terceiro trimestre, a resistência à insulina continua ainda a aumentar, a um ritmo mais lento, e atinge o máximo nas semanas 32–36 [1]. Alguns casos de diabetes gestacional são diagnosticados mais tarde, quando o rastreio padrão foi negativo, mas os fatores de risco persistem e manifestam-se mais tarde. Uma glicemia com valores de diabetes, detetada logo no primeiro trimestre, significa na maioria dos casos uma diabetes pré-existente, não descoberta antes da gravidez. Não se trata de uma diabetes provocada por ela.

Quão frequente é a diabetes gestacional?

A diabetes gestacional afeta cerca de 14% das gravidezes a nível global, com variações em função da população estudada e dos critérios de diagnóstico utilizados [5]. A prevalência varia significativamente entre regiões, sendo maior no Médio Oriente, no Norte de África e no Sudeste Asiático [2]. Para ti, esta percentagem significa que a prova de tolerância à glicose oral das semanas 24 a 28 faz parte dos cuidados habituais da gravidez. Não é uma medida reservada às mulheres de risco.

Nas últimas décadas, a incidência da diabetes gestacional aumentou de forma constante, paralelamente à epidemia global de obesidade [2]. As alterações do estilo de vida, a idade materna mais avançada e o aumento da prevalência da obesidade contribuem todos para esta tendência. A normalização dos critérios de diagnóstico propostos pela IADPSG (um grupo internacional de peritos em diabetes e gravidez) permitiu uma estimativa global mais precisa desta condição [5].

Que hormonas da gravidez afetam a glicemia?

Várias hormonas secretadas pela placenta interferem com a ação da insulina [4]. A hormona lactogénica placentária (hPL) tem o papel principal. Aumenta a resistência à insulina porque ativa a lipólise, ou seja, a decomposição das gorduras de reserva, e lança na circulação ácidos gordos livres [1]. A progesterona e o estrogénio contribuem também para a redução da sensibilidade dos tecidos à insulina.

O cortisol, a hormona produzida pelas glândulas suprarrenais, aumenta igualmente na gravidez e amplifica a resistência à insulina. Atua sobre os recetores glucocorticoides, ou seja, sobre os locais das células através dos quais exerce o seu efeito [6]. A hormona de crescimento placentária e a leptina completam este quadro hormonal complexo, que pressiona a capacidade do pâncreas de secretar insulina [4].

A diabetes gestacional pode surgir em qualquer gravidez?

Sim, a diabetes gestacional pode surgir teoricamente em qualquer gravidez, inclusive em mulheres sem fatores de risco aparentes. No entanto, o risco é significativamente maior caso tenhas tido diabetes gestacional numa gravidez anterior [7]. Entre 30% e 84% das mulheres afetadas voltarão a desenvolver diabetes gestacional numa gravidez seguinte, com taxas mais elevadas nas populações de risco acrescido [8]. Numa segunda gravidez, a diabetes gestacional reaparece em cerca de 4 em cada 10 mulheres [7].

Outros fatores aumentam a probabilidade: o excesso de peso, a idade acima dos 35 anos, o histórico familiar de diabetes tipo 2 e a síndrome dos ovários poliquísticos [3]. O facto de ter tido uma gravidez sem diabetes gestacional não garante que as gravidezes seguintes sejam iguais. Cada gravidez deve ser monitorizada individualmente, e o teste da glicemia permanece obrigatório.

Porque é que a placenta influencia o metabolismo da glicose?

A placenta influencia o metabolismo da glicose para assegurar um aporte contínuo de nutrientes ao feto [6]. O feto depende exclusivamente da glicose materna para crescer e desenvolver-se, não sendo capaz de produzir sozinho aquilo de que necessita. Ao aumentar a resistência à insulina da mãe, a placenta dirige mais glicose para a circulação fetal [4].

Este mecanismo é uma adaptação evolutiva que funciona bem enquanto o pâncreas materno conseguir compensar [6]. A placenta age como um órgão endócrino complexo, secretando hormonas que reconfiguram o metabolismo materno. Quando esta reconfiguração ultrapassa a capacidade de adaptação da mãe, o resultado é a diabetes gestacional [1].

O que acontece à diabetes após o parto?

Após a eliminação da placenta, as hormonas responsáveis pela resistência à insulina desaparecem rapidamente da circulação [1]. Na maioria dos casos, a glicemia volta ao normal nas primeiras horas ou dias após o parto. O tratamento com insulina ou antidiabéticos orais é geralmente interrompido logo após o parto. Mas o momento e a decisão cabem à equipa médica, que continua a vigiar as glicemias [2].

No entanto, é essencial efetuar uma prova de tolerância à glicose oral 4 a 12 semanas após o parto, para confirmar a resolução do problema [3]. O risco de desenvolver diabetes tipo 2 permanece aumentado a longo prazo, motivo pelo qual se recomenda um controlo anual prolongado. A amamentação, a manutenção de um peso normal e a atividade física regular podem reduzir significativamente esse risco numa mãe com histórico de diabetes gestacional [9].

Conclusões

  • A diabetes gestacional surge através de resistência à ação da insulina, induzida pelas hormonas placentárias, e resolve-se geralmente após o parto, com a expulsão da placenta [1] [2].
  • A condição é diagnosticada com maior frequência entre as semanas 24 e 28 da gravidez, altura em que a prova de tolerância à glicose oral (PTGO) é obrigatória [2] [3].
  • As hormonas da gravidez (hPL, progesterona, estrogénio e cortisol) bloqueiam normalmente a ação da insulina para direcionar a glicose materna para o feto [4] [6].
  • A diabetes gestacional afeta ~14% das gravidezes a nível global, com tendência crescente, associada à epidemia de obesidade e à idade materna mais avançada [2] [5].
  • Cerca de 4 em cada 10 mulheres com diabetes gestacional voltam a tê-la na gravidez seguinte, com variações entre 30% e 84% conforme o estudo [7] [8]. A amamentação e um estilo de vida saudável reduzem significativamente o risco posterior de diabetes tipo 2 [9]. A prova de tolerância à glicose oral 4 a 12 semanas após o parto mostra se a glicemia voltou ao normal [3].

Referências

  1. Mittal R, Prasad K, Lemos JRN, Arevalo G, Hirani K. Unveiling Gestational Diabetes: An Overview of Pathophysiology and Management. Int J Mol Sci. 2025;26(5):2320. PubMed
  2. Sweeting A, Hannah W, Backman H, Catalano P, Feghali M, Herman WH, et al. Epidemiology and management of gestational diabetes. Lancet. 2024;404(10448):175-192. PubMed
  3. Sweeting A, Wong J, Murphy HR, Ross GP. A Clinical Update on Gestational Diabetes Mellitus. Endocr Rev. 2022;43(5):763-793. PubMed
  4. Calvo MJ, Parra H, Santeliz R, Luzardo E, Villasmil N, Martínez MS, et al. The Placental Role in Gestational Diabetes Mellitus: A Molecular Perspective. touchREV Endocrinol. 2024;20(1):10-18. PubMed
  5. Wang H, Li N, Chivese T, Werfalli M, Sun H, Yuen L, et al. IDF Diabetes Atlas: Estimation of Global and Regional Gestational Diabetes Mellitus Prevalence for 2021 by International Association of Diabetes in Pregnancy Study Group's Criteria. Diabetes Res Clin Pract. 2022;183:109050. PubMed
  6. Hill DJ. Placental control of metabolic adaptations in the mother for an optimal pregnancy outcome. What goes wrong in gestational diabetes? Placenta. 2018;69:162-168. PubMed
  7. Getahun D, Fassett MJ, Jacobsen SJ. Gestational diabetes: risk of recurrence in subsequent pregnancies. Am J Obstet Gynecol. 2010;203(5):467.e1-6. PubMed
  8. Kim C, Berger DK, Chamany S. Recurrence of gestational diabetes mellitus: a systematic review. Diabetes Care. 2007;30(5):1314-1319. PubMed
  9. Suthasmalee S, Phaloprakarn C. Lactation duration and development of type 2 diabetes and metabolic syndrome in postpartum women with recent gestational diabetes mellitus. Int Breastfeed J. 2024;19(1):25. PubMed

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Ioacara S. Compreender a diabetes gestacional: causas e cuidados. Diabetes Academia. Atualizado 5 de outubro de 2026. https://diabetesacademia.com/pt/dg/base

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